Existem, pelo menos, dois Lampiões: um é assassino inconseqüente, bandido cruel e sem nenhum sentimento. Deste não vou falar, pois o imaginário popular já cuida disso e sobre ele inventa. Vou me retratar ao jovem sertanejo, trabalhador, poeta, de família pobre, do sertão.
Virgulino Ferreira da Silva nasceu em junho de 1898, em Serra Talhada, Pernambuco. Era o terceiro dos filhos de José Ferreira dos Santos e de Maria Lopes. Juntos trabalhavam na criação de animais e na lavoura. Ele era ligado a avó, com quem aprendeu a fazer renda e, para ela, criou a famosa composição: “Olê, Mulher Rendeira, Olê mulhé rendá Tu me ensina a fazer renda, eu te ensino a namorá.”.
Fora de casa, havia um Nordeste tomado pela injustiça, onde só latifundiários e coronéis tinham vez. Virgulino nasceu, cresceu e viveu em meio às sangrias do sertão, nas disputas de poder político regado a morte. A família precisou fugir de ladrões que recebiam apoio da polícia e de fazendeiros. A mãe dona Maria não agüentou as andanças pela caatinga e morreu de infarto. Dias depois, o pai dele foi executado a tiros. Virgulino decidiu então lutar até a morte. Era difícil pensar diferente, numa época em que não se podia contar com polícia, promotor ou juiz. O que valia era a lei do povo, mais severa que “olho por olho e dente por dente”.
Qualquer homem ofendido tinha a resposta no cano de uma espingarda. Foi assim que morreu o sertanejo trabalhador e nasceu o cangaceiro: Lampião. Foram centenas de batalhas contra forças policiais patrocinadas por grandes fazendeiros. O rei do cangaço odiava traição. Apreciava a lealdade e o respeito.
O grupo de Virgulino era formado por pessoas que, como ele, se sentiam injustiçadas e sofriam sem força para, sozinhas, reagir. Os cangaceiros de Lampião saqueavam e matavam, mas não eram mais violentos que os policiais que o perseguiam. Virgulino Ferreira morreu no dia 28 de julho de 1938, a tiros, numa encurralada, na Grota do Angico, em Sergipe.
Pretendo aqui destacar que para falar de Lampião é preciso conhecê-lo. E mais importante que conhecer é compreender. Dizem ter sido ele um bandido, sanguinário, cruel e inconseqüente. Esquecem que foi, nada menos, que um produto do meio. Nada mais foi do que uma resposta à insatisfação social do camponês contra a prepotência do latifundiário. Quantos Virgulinos não existiram e, por que não dizer, ainda existem?
Lampião não teria entrado para a história se não fosse tão carismático e contraditório. Era generoso, justo, prudente, arrojado e, ao mesmo tempo, cruel. Era um homem que assaltava e rezava. Era católico. Tinha profundo respeito pela igreja. Dava esmolas aos necessitados.
Pessoa de um coração abafado por angústias de dor, sofrimento e saudade. Queria um dia deixar o cangaço e se tornar comerciante, mas não conseguiu. Era muito perseguido. Escolheu comandar o mais sincero e rigoroso protesto, mesmo que isso tenha lhe custado ver as mãos sujas de sangue. Infelizmente, errou por não entender que a melhor revolução é a que se faz sem violência. Não foi a estrela que os sertanejos sonhavam, mas deu luz ao nordestino que implorava por paz, igualdade e justiça. Tudo ao preço de suor, pesadelo, morte, lágrimas e vidas destruídas.
Foi condutor duro, inflexível, com frieza no olhar, mas nunca deixou de ser um homem que se emocionava, diante de tanta dor e tristeza. Encontrava alegria, em meio ao tormento, e ainda foi capaz de dedicar amor a sua Maria Bonita, até a morte.
O Rei do Cangaço
Virgulino tinha uma vida de batalhas, vinganças, mortes, perdas, saques e fugas pelos espinhos da caatinga. Lampião e seu grupo passavam fome, dias sem comer, mas, ao contrário do que muitos pensam, não eram mendigos, mas pessoas de posses e que tinham vaidade. Não eram maltrapilhos. Vestiam paletó, pelo menos, até 1926, quando Virgulino Ferreira e seus dois irmão receberam, do governo federal, patentes de oficiais das forças armadas. A intenção era que eles combatessem o movimento tenentista. Tais combates, na verdade, nunca vieram a ocorrer.
Como integrantes do Batalhão Patriótico, e Lampião sendo capitão, o grupo passou a usar uniformes e armas do exército brasileiro, o que deixou sua situação ainda pior, ao ser confundido com as forças policiais que faziam terríveis atrocidades pelo sertão. No final das contas, tudo era atribuído a ele.
Lampião foi o Rei do Cangaço, mas não foi o fundador desse movimento. Foi o mais expressivo dos cangaceiros. O título de rei, no entanto, custava-lhe muito caro. Muita gente só ouvia falar dele, mas não o conhecia. Outros cangaceiros aproveitavam isso para roubar, violentar meninas, matar e, ao final de tudo, diziam que eram Lampião. Por conta do acaso, aconteceu até de, um dia, o verdadeiro Rei do Cangaço ter sido abordado por bandidos dizendo serem do grupo de Lampião, sem saberem que estavam falando com o próprio.