SONHADOR
Eu quase passava em branco e não prestava uma homenagem ao Alberto Silva. O cara era sonhador mesmo, mas, acima de tudo, muito inteligente.
Uma pessoa que trabalhava com ele disse que Alberto Silva, engenheiro que era, sabia tudo de matemática. Pra se ter uma idéia, era capaz de fazer um cálculo de Integral só de cabeça. Pra quem conhece, sabe que é difícil.
Outra coisa: eu soube que na construção do estádio Albertão, os engenheiros não estavam acertando fazer aquelas torres de iluminação. Foi aí que o velho se meteu, deu um show e mostrou como se faz. Estão aí as torres até hoje, sem nenhuma rachadura.
Mas, cá entre nós, o que ele gostava mesmo era de política.
No movimento pré-eleitoral de 1994, Alberto Silva andava bastante animado com a possibilidade de vitória do candidato Francisco Morais Sousa, o Mão Santa, recém transferido para o PMDB.
Também candidato, sendo que à deputado federal, Alberto Silva, quando um correligionário lhe telefonou para saber das coordenadas, o velho sonhador disse:
- Olha, companheiro, precisamos acabar com esta oligarquia do Piauí. Vamos eleger gente competente e experiente, como meu filho Paulo Silva, minha filha Suzana, meu sobrinho João Silva, meu filho Marcos Silva e meu genro Paulo Cunha.
ALMA DE PIRATA
Não me interessa que os mares sejam sete, os medos sejam quase doze e as possibilidades de calmaria sejam zero. Pouco importa que centenas de fileiras de canhões estejam mirando o breve espaço entre meus olhos. Não me causa medo que seus tesouros sejam supostamente guardados por monstros que cuspam fogo, nem por enormes cavaleiros vestidos de branco.
Nunca me flagrei sentido as pernas tremerem nem os cílios farfalharem em meio às ventanias das tempestades. Das pranchas já saltei algumas vezes, mergulhando entre tubarões de todas as cores. Perdi, sim, perdi aqui e ali um pedaço de mim. Tenho um olho de vidro, um gancho eternamente espetado no peito e o terço inferior de minha perna esquerda dói bastante nas noites frias.
Tenho tatuada na testa a marca da insensata sensatez de buscar meus sonhos. Carrego nas costas as cicatrizes das milhares de chibatadas desferidas por quem desacredita nas coisas que inexistem, óbvias e claramente visívies. Mas, aqui, pulsa sem parar, um coração, fechado dentro de um baú, enterrado bem no fundo do mar, em local incerto, sem mapas nem cruzes nem sinais de quinze passoas à direita.
Não há abismos após o horizonte. Não para mim e para os vários “eus” que me acompanham nas batalhas. Eu que conheço posso dizer: não acredite que em algum lugar do outro lado do mundo haja um redemoinho que rode e rode e rode, tragando as alegrias. Já abati com minha espada o pobre e pequeno grande monstro devorador de desejos e dele existem milhões de pedaços espalhados pelo céu em forma de estrelas.
Meu destino é buscar eternamente a glória efêmera, a alegria delirante do rum, e morrer na eterna luta contra o mundo. Abordar, saquear, tomar para mim o que não de todos e, portanto não é de ninguém. Meus sonhos não me deixam acordar. Minha ética é não perder, mesmo que não vença.
Não me interessa que os mares sejam sete, os medos um pouco mais que doze e as possibilidades de calmaria sejam zero. Nasci em noite de mar revolto. Vivo dia após dia coberto de pólvora e rum e maresia. Do fio de minha espada emana o cheiro do sangue dos meus inimigos. Não desisto. Quem carrega na alma o corsário jeito de passar pelos dias, o modo de sorrir para os céus, sabe que, o futuro, a ninguém pertence.
Não interessa nenhum dos perigos deste e de outros mundos. O mundo que cante em verso e prosa essa estória sem fim. A estória do pirata que cruzou risonhamente todos os mares, e descobriu que o viver pode se resumir a uma frase: "viver é ter você em mim".
MUDANÇA
Sempre é preciso saber qdo uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram.
Uma pessoa que trabalhava com ele disse que Alberto Silva, engenheiro que era, sabia tudo de matemática. Pra se ter uma idéia, era capaz de fazer um cálculo de Integral só de cabeça. Pra quem conhece, sabe que é difícil.
Outra coisa: eu soube que na construção do estádio Albertão, os engenheiros não estavam acertando fazer aquelas torres de iluminação. Foi aí que o velho se meteu, deu um show e mostrou como se faz. Estão aí as torres até hoje, sem nenhuma rachadura.
Mas, cá entre nós, o que ele gostava mesmo era de política.
No movimento pré-eleitoral de 1994, Alberto Silva andava bastante animado com a possibilidade de vitória do candidato Francisco Morais Sousa, o Mão Santa, recém transferido para o PMDB.
Também candidato, sendo que à deputado federal, Alberto Silva, quando um correligionário lhe telefonou para saber das coordenadas, o velho sonhador disse:
- Olha, companheiro, precisamos acabar com esta oligarquia do Piauí. Vamos eleger gente competente e experiente, como meu filho Paulo Silva, minha filha Suzana, meu sobrinho João Silva, meu filho Marcos Silva e meu genro Paulo Cunha.
ALMA DE PIRATA
Não me interessa que os mares sejam sete, os medos sejam quase doze e as possibilidades de calmaria sejam zero. Pouco importa que centenas de fileiras de canhões estejam mirando o breve espaço entre meus olhos. Não me causa medo que seus tesouros sejam supostamente guardados por monstros que cuspam fogo, nem por enormes cavaleiros vestidos de branco.
Nunca me flagrei sentido as pernas tremerem nem os cílios farfalharem em meio às ventanias das tempestades. Das pranchas já saltei algumas vezes, mergulhando entre tubarões de todas as cores. Perdi, sim, perdi aqui e ali um pedaço de mim. Tenho um olho de vidro, um gancho eternamente espetado no peito e o terço inferior de minha perna esquerda dói bastante nas noites frias.
Tenho tatuada na testa a marca da insensata sensatez de buscar meus sonhos. Carrego nas costas as cicatrizes das milhares de chibatadas desferidas por quem desacredita nas coisas que inexistem, óbvias e claramente visívies. Mas, aqui, pulsa sem parar, um coração, fechado dentro de um baú, enterrado bem no fundo do mar, em local incerto, sem mapas nem cruzes nem sinais de quinze passoas à direita.
Não há abismos após o horizonte. Não para mim e para os vários “eus” que me acompanham nas batalhas. Eu que conheço posso dizer: não acredite que em algum lugar do outro lado do mundo haja um redemoinho que rode e rode e rode, tragando as alegrias. Já abati com minha espada o pobre e pequeno grande monstro devorador de desejos e dele existem milhões de pedaços espalhados pelo céu em forma de estrelas.
Meu destino é buscar eternamente a glória efêmera, a alegria delirante do rum, e morrer na eterna luta contra o mundo. Abordar, saquear, tomar para mim o que não de todos e, portanto não é de ninguém. Meus sonhos não me deixam acordar. Minha ética é não perder, mesmo que não vença.
Não me interessa que os mares sejam sete, os medos um pouco mais que doze e as possibilidades de calmaria sejam zero. Nasci em noite de mar revolto. Vivo dia após dia coberto de pólvora e rum e maresia. Do fio de minha espada emana o cheiro do sangue dos meus inimigos. Não desisto. Quem carrega na alma o corsário jeito de passar pelos dias, o modo de sorrir para os céus, sabe que, o futuro, a ninguém pertence.
Não interessa nenhum dos perigos deste e de outros mundos. O mundo que cante em verso e prosa essa estória sem fim. A estória do pirata que cruzou risonhamente todos os mares, e descobriu que o viver pode se resumir a uma frase: "viver é ter você em mim".
MUDANÇA
Sempre é preciso saber qdo uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram.
