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Local: Teresina, Batalha, Piauí, Brazil

17 junho 2009

ROADSTAR

Ouvi dizer algum dia que só damos valor à água quando a fonte seca. Poisé. Michael Jackson morreu e só agora descobri que eu era muito fã dele. Aliás, todo mundo aqui em casa. Não sei na sua. Lembro que eu era criancinha, e pedia pra meu pai colocar no som do carro. O toca-fitas era um roadstar. O carro era um fiat branco 147. A música era Beat it. Aí eu pedia:
- Papai, volta a música!
- Papai, volta de novo!
- Quero de novo.
Até que ele dizia:
- Não, meu filho, vamos ouvir as outras músicas! Num tem só essa nao..

E eu tinha, nessa época, uns quatro anos. Nem sabia o que era música ou dança de verdade. Sei que eu gostava, porque, na verdade, fui contagiado pelo som do Mega Star. Tinha um passo que ele fazia, aquele "caminhado pra trás", que só quem é aleijado das duas pernas nunca tentou fazer. Fala sério! Você tentou. O cara era um show.

E nesta data, em que todo mundo lembra o quão Michael Jackson foi importante pro mundo, eu lembro o quanto ele foi importante pra mim. Fico lembrando dos tempos em que eu era criança e queria dançar igual. Reginaldo Rossi disse que Jackson foi "mais" que Elvis Presley. Será? Talvez, se considerarmos que Rossi é músico, entende do assunto, e viveu as duas épocas.

Michael Jackson foi o autor da primeira música que marcou minha vida (todo mundo tem sua primeira música que marcou a vida). E quando ouço a música novamente, revivo. É como se Michael estivesse vivinho da silva, cantando pra mim (já que a música não é mais sucesso, e as rádios não estão nem aí pra isso).

Fico pensando que ele foi tão importante pra mim, durante todo esse tempo e não dei a devida importância. Agora o cara se foi e ficou o vazio. A gente fica pensando é "como pode ele morrer, se parecia um imortal?" Talvez, o queriamos para nosso ídolo era que morresse bem velhinho e feliz, assim como queremos que seja com a gente.
É essa, minha pequena homenagem.

BOI, BICHIM VÉI
Ei, xô contar uma história aqui.
Desde quando eu era criança que morava lá em Serra Talhada-PE, onde nasceu Lampião, ouvia as pessoas dizerem que "boiadeiro é cabra irresponsável". Vou explicar. "Boiadeiro" é motorista de caminhão que transporta boi, aqueles gaiolões com carroceria de madeira. E realmente, os boiadeiros são muito irresponsáveis na estrada. Fazem ultrapassagem perigosa, jogam os outros carros no acostamento, uma loucura.
Mas, como costumo dizer, pra tudo tem uma explicação. E a explicação é uma das histórias mais tristes que ouvi nos últimos tempos.

Conversando com um motorista desses caminhões, ele revelou como é dura a jornada de trabalho. Sai de uma cidade do interior do Pará, com destino ao interior de Pernambuco. São quatro dias de viagem, sem parar, sem dormir. Não pode sequer desligar o motor do carro. E lá chegando, é bate-e-volta. Pra aguentar o rojão, só mesmo sob efeito de medicamentos para não dormir ao volante. Quer dizer, remédio pra ficar com os olhos abertos, porque todos dormem. Acontece que Deus é grande. O trabalho estressante explica as imprudências desses homens nas estradas. Explica mas não justifica, é claro.

E não é só isso. Os motoristas precisam ficar atentos com os animais que transportam. Os bichos não podem dormir nem se deitar na carroceria. Não podem se deitar, pois os demais pode pisar neles e matá-los. Para que os bois não durmam, o motorista sempre pára e joga sabão nos olhos dos bichinhos. Os que arriscam se deitar, recebem uma descarga elétrica, com um equipamento especial que está lá só pra isso. Alguns animais, obvio, não resistem e morrem no caminho. O motorista é obrigado a vender o 'defunto' seja lá onde for, pelo preço que for, pois, caso contrário, vai pagar a conta.

O homem que contou essa história pra mim explicou que o nível de loucura é tão grande que, certa vez, estava num desses postos de combustíveis, quando chegou um boiadeiro. O condutor do carro estava maluco, que não sabia quem era, não sabia pra onde ia ou que estava fazendo. O coitado estava tão desesperado que mordia a própria mão e ficava esfregando uma faca nos dentes.

Na verdade, estou contando tudo isso para mostrar como muitas vezes é dura uma realidade que, aos nosso olhos, parece tranquila. Assim, nunca devemos julgar sem antes conhecer.

04 junho 2009

COISA SÉRIA

Um dos melhores comentaristas esportivos que existem no Piauí é o William Bogéa, dizem. Não sei o porquê, mas dizem que é. Ele e seu famoso “Meus amigos, futebol é coisa séria.”
Bogéa não costuma chamar as pessoas pelo nome. Todo mundo pra ele é “Véi”.
- Véi, até amanhã.
- Quero falar contigo, véi.

Lá pelos anos 80, quando William Bogéa era diretor esportivo da Rádio Poti, havia um novo componente na equipe. Como todo principiante, a timidez o fazia gaguejar e tropeçar nalgumas palavras. Por exemplo, ele não conseguiu dizer a palavra “bairro”. Só falava “bárrio”.
Com a reclamação de alguns ouvintes, o chefe Bogéa chamou o subordinado para um papo.
- Olha, véi, tu tem futuro, mas tem umas palavras aí que tu pisa na bola. Por exemplo, bairro tu num sabe dizer. Tu diz é bárrio. Vou te ensinar aqui. Diz aí: ba-ir-ro.

Chico Rato, o locutor novato, tentou dizer e saiu “bárrio”.
- Não, véi, é baiiiiirro, baiiiiirro. Diz aí!

Não tinha jeito, o rapaz repetia sempre “bárrio, bárrio, bárrio.” Depois de mais de meia hora tentando consertar a pronúncia do pupilo, o professor fez a última tentativa.
- Véi, é a última vez. Diz aí: BAIIIIIIIIIRRÔ!
- BÁRRRRIÔ!

Impaciente, Bogéa pegou o boné e saiu fumaçando.
- Vai-te à porra, véi.



MULHER PERFEITA É IMPERFEITA

Dizia o André Gonçalves que a mulher precisa ser imperfeita. A mulher perfeita é a que não é perfeita.

Mulher precisa ter celulite. Um pouquinho, claro, mas precisa. Porque mulher sem celulite não pode ser uma mulher legal. Mulher sem celulite não deve gostar de sanduíche nem de refrigerante. Não deve gostar de tomar um vinhozinho ao luar, na madrugada de sábado, nem deve gostar de pequenos pecados como um brigadeiro vez por outra depois do almoço.

Mulher precisa ter, por exemplo, um dedinho do pé um pouco encavalado, assim, por cima do outro dedo que, por não saber exatamente como se chama, é dedo anelar do pé. Porque mulher com dedinho encavalado precisa de massagens nos pés, antes de ir dormir, o que, no mínimo, implica numa sessãozinha diária de carinho, risos e brincadeiras, muitas vezes com direito a óleo de amêndoas e coisas do gênero. E, numa dessas, sabe lá onde isso vai parar...

Mulher precisa ter os dentes um pouquinho tortos. Nada mais charmoso que um lindo sorriso com dentinhos um pouquinho tortos. Quem sabe com um caninozinho um pouco mais pontudo que o outro. E mulher com dentes um pouquinho tortos, muitas vezes, precisa usar aparelho, e adoro o ar juvenil de mulheres usando aparelho.

A mulher perfeita deve ter a deliciosa imperfeição de ter dúvidas. Dúvidas a respeito da roupa que vai usar, do candidato em que vai votar, da carreira que vai seguir. Deve encher o banheiro de frascos de perfume, de cremes, de balangandãs que nunca vão ser usados, mas que são guardados como se fossem essenciais ao futuro da humanidade.

A mulher perfeita às vezes quer ficar dormindo até mais tarde, e fica mal-humorada quando precisa levantar às seis da manhã. Precisa ter preguiça, mas como ela é imperfeita, levanta assim mesmo e começa o dia escovando os dentinhos tortos e molhando a pia do banheiro, o chão, e, depois de tomar banho, deixar a toalha molhada jogada em cima da cama.

Mulher perfeitamente imperfeita tem uma ou duas ruguinhas quando ri, tem cabelo com pontas duplas e precisa ir ao salão de vez em quando, porque tem cheiro de cabelo de mulher quando sai do salão. Mulher perfeita tem estrias, e tem uma ou duas pequenas cicatrizes, porque mulher perfeita foi uma menina sapeca, que caía e se machucava e traz, no corpo e na alma, as marcas de uma vida cheia de aventuras e experiências.

Mulher perfeita tem histórias tristes e alegres para contar, para que possamos rir e chorar juntos e nos dar as mãos para sentirmos que estamos ali, perto um do outro, para o que der e vier.

Viva a imperfeição!!!