DOMINGO
| A gente compra. Ás vezes, em muitas prestações. A gente come. Às vezes, muitos pedaços, fatias ou unidades. A gente deixa de comer, faz dieta, e emagrece. A gente lê muitos livros. Às vezes, uns de noventa ou até de quinhentas páginas. Às vezes, a gente não lê, quer dar um tempo nas reflexões e viver como bom burguês, trabalhando. Ás vezes, a gente ama. Ama, com “a” maiúsculo. Às vezes, AMA, com todas as letras em maiúsculo. E a gente beija, às vezes. A gente consome, come, compra, assisti, lê, ouve, veste, desenha, pinta, escreve, estuda, mas toda semana tem sete dias. E tem domingo. E, por mais incrível que pareça, às vezes, tem domingo que faz frio lá fora e chove aqui dentro. Chove e evapora. A meteorologia dos nossos sentimentos não previu nada, nem consegue localizar nuvem nenhuma de maus pensamentos para chover assim. E evaporar assim. A gente, eu não sei, mas tem gente que só consegue escutar o silêncio do vazio no silêncio do domingo. E essa gente tenta fazer barulho. Digita só para escutar uma canção qualquer nas teclas do computador. E deseja. Deseja tudo. Às vezes, não deseja nada, coisa nenhuma. Só deseja desejar. Para fazer barulho. Às vezes, deseja aviões enormes, com turbinas bem barulhentas, movidas à adrenalina. Mas tem consciência de que nunca vencerá o silêncio do vazio dos domingos. Não é à toa que essa gente escreve quase sempre aos domingos. |
