CHIP 31 ANOS
“... pois é, mulher, eu não gosto é deste nome. Rapariga. Acho feio. Tu vê que, quando o homem quer esculhambar uma mulher, chama logo de rapariga. Quando quer humilhar a gente. Olha, eu te digo bem aqui, estou nesta vida mas tenho minha vergonha, minha moral. Então, porque eu não tenho emprego, bem que eu procuro, tu sabe, né? Ainda ontem, fui ver aquele emprego no escritório que o Valfrido me disse. O amigo dele queria uma secretária. Era gente boa. A primeira coisa que o cara fez foi meter a mão nos meus peitos. Pra lá! Dei um chega nele e disse o diabo. É assim: os homens só querem aproveitar. Não nego. Eu posso sair com um homem, fazer programa que eu faço mesmo, mas é dentro da moral e da decência. Outra coisa, mulher: eles querem tudo de graça. Pensam que a gente anda doida por macho. Eu, por mim, não me entrego a qualquer veste-calça. Tem uns que só porque tem carro importado, andam cheirosos, bebem uísque, acham que a mulher deve ser escrava deles, fazer o que eles mandam e ainda não querem pagar bem. Olha, Lindinalva, eu vou te dizer uma coisa: eu posso até receber uma mincharia de um estudante, de um caixeiro de loja, de um professor porque é gente que ganha pouco, mas de homem com carro de ar condicionado, sonzão estourando, bebedor de uísque, só um bom dinheiro. Acima de duas onças. Ora, se eu vou abrir minhas pernas por mincharia. Vou nada! Minha filha eu tenho 19 anos, passo por moça em qualquer lugar. Deixa eu te dizer: outro dia eu não fui para Fortaleza, fazer de conta que era noiva com um cara? Mulher, foi o maior barato. Mordomia, milha filha, mordomia. Ficamos num hotel grande, umas dez estrelas. Chegando lá, o cara me tratando divinamente bem, um luxo, ele me apresentou como estudante da faculdade de não sei o quê, mas disse que eu falasse pouco. Foi o que eu fiz. Me levou para a casa de uns parentes, eu dissesse o nome que ele mandou, falei pouco, acho que o povo de lá não gostou muito de mim não, porque ele disse que a gente ia voltar logo. Passamos só uma noite e assim mesmo o cara não transou. Pois, mermã, tu acredita que o cara era bicha? Queria só fazer figuração comigo. Eu não tava nem aí, ele me pagou bem e ainda hoje é meu amigo. Empresário conhecido, mulher. Bicha. Dá o anel que chora... Olha aqui, tu tá vendo este celular? Ah, mermã, foi a coisa mais importante que o homem inventou. Se não fosse o celular o que seria das raparigas? Rapariga sem celular é uma lascada. Foi um velho que me deu. Eu sai com ele, tá sabendo né, aí eu combinei com ele para fazer um programa por semana, de graça. Ele me dava um michê de uma onça. Dava 4 onças por mês. Ele paga o celular e fica pela transa. Gente boa, sem problema, a gente ainda almoça no motel. Olha, mulher, em tudo no mundo tem que negociar. A coisa tá difícil, mermã.O que tem de estudante concorrendo com a gente. Essas meninas que vem do interior, estudar em Teresina, andar na Templo, toma cerveja nos pagodes, nas suinguieiras. Taí, num gosto de suingueira. Detesto. Num tem futuro. Lá nessas suingueira é que gostam de chamar a gente de rapariga. Rapariga é a mãe deles. Vige, vou apagar o fogo da panela, depois te ligo...”

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