GREVE
Estou de greve. Greve de ar. Hoje, nada de ar. Nem uma gota. Hoje, viver sem ar. Sem fôlego. Oxigênio mata. Enferruja as células. Nada, nada, nada de ar. Nem uma gota. Morrer sem ar? E quem morre por falta de ar? Morre-se por falta de amor, isso sim. Falta de ar não mata ninguém. Não. Nada de ar. Nada. Melhor deixar aqui dentro só o que já está aqui dentro. Perigoso esse negócio de respirar. Cada inspirada uma multidão de bactérias, medo e vírus. Quem sabe o que mais pode vir? Cada expirada um mundo de partículas de nós espalhadas por aí. E onde vamos parar? Nada disso. Hoje, não inspiro. Não expiro. Não inspiro. Não expiro. Hoje, fico vivo e não respiro. Oxigênio mata. Falta de ar não mata. Oco na barriga mata. Falta de ar não mata. Vazio no coração mata. Falta de ar não mata. Não. Nem uma gota. Nada. Hoje, não. Nada de ar. Melhor: ar, agora, só quando você voltar. Nem hoje nem dia nenhum enquanto você insistir em deixar presente essa sua ausência. Não respiro. Não quero mais ar. Nem uma gota, até você voltar. Porque falta de ar não mata. O que mata é a falta de você. O que mata é esse vazio que você deixa no ar. Nada. Hoje, nada de ar. Nem uma gota. Nada. Nem hoje, nem nunca. Só quando você voltar.

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